São Paulo, mais de 13 milhões de pessoas só na capital, uma das economias mais importantes do país, que produz a maior parte do PIB nacional. Pessoas vêm e vão de todos os lados e de todas as direções admirando o cenário urbano. Mas há um elemento que incomoda muitas pessoas e aos poucos, se tornou parte da paisagem, os moradores de rua. Há muito tempo os moradores de São Paulo, assim como de outras cidades do Brasil convivem com esse personagem comum no seu dia a dia, pessoas em situação de total miséria. Segundo a FIP(Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas), o número de moradores em situação de rua cresceu. Em pesquisa realizada entre os anos de 2000 e 2009, constatou-se o aumento de 57% a mais de pessoas que vivem nas calçadas.
Ainda que sejam muitas as pessoas nas calçadas e se fazem notar muitas vezes pelas roupas maltrapilhas e sujeira, esses seres humanos se sentem invisíveis dentro da correria da movimentada São Paulo. São 13.666 pessoas nessas condições, sem casa, desempregadas e sem destino, a vagar por São Paulo, como Sofia Corrêa Portugal , moradora de rua que se diz autodidata. Ela afirma ter estudado apenas por três meses e não quis mais ir para a escola, onde morava no interior de Minas Gerais,em Lavras. Sofia escreve poemas e pinta quadros na calçada de um restaurante no bairro Jardim Paulista, área nobre de São Paulo. Além disso, Sofia é apaixonada por futebol e escreve sobre o esporte. Como as poesias que fez em homenagem ao centenário do Corinthians, um total de quatro paginas lidas em voz alta por ela e com muita emoção.
O sociólogo Renato Carvalheira do Nascimento informa serem vários os motivos que levam uma pessoa a residir na rua. “Uma delas que achei interessante é que na cidade do Rio de Janeiro vários deles eram trabalhadores e ficava muito caro ir e voltar de casa ao trabalho, daí dormia nas ruas. Mas existe muito forte a questão das drogas: crack e álcool principalmente. Há também problemas psicológicos”.
Indagado também se existe algum benefício para esses moradores, como por exemplo, não ter contas para pagar, Renato é objetivo na resposta. “É bastante relativo, além de não pagar contas, apontam liberdade, mas os custos são maiores que os benefícios.”
Renato explica o paradoxo que é essa situação, como a de São Paulo e Rio de Janeiro, que são as maiores economias do país e não conseguem eliminar esse estado de miséria das pessoas. “Economias como São Paulo e Rio de Janeiro receberam um contingente enorme de pessoas nas décadas de 60, 70,80 e 90. Somente agora as duas cidades não estão crescendo, além disso, o capitalismo é excludente por natureza. O capital nunca foi amigo do social. Economia forte não significa resolução dos problemas sociais”, disse.
Diante do problema social, que é tão explícito, a impressão é de que existe indiferença por parte da sociedade com relação a essa situação dos moradores de rua. O sociólogo enfatiza que não. “A sociedade não é indiferente, basta ver quantas entidades da sociedade civil que trabalham com o tema. Além de instituições ligadas à Igreja, existem IBASE, FASE, PÓLIS, etc.”
Carvalheira esclarece como se deu a introdução em grande escala dessas pessoas em extrema pobreza nas grandes capitais. “Dos anos 70 para cá se tornou um sistema que não mais precisa de empregos de massa, como na primeira revolução industrial. Hoje o desemprego é estrutural e com isso a massa dos desempregados que eram necessários ao sistema, antes havia a troca de trabalhadores sempre a um custo baixo, passaram a ser desempregados desnecessários e se tornaram peças descartáveis do sistema, passíveis de exclusão social”, destaca.
Há um perfill estimado para as pessoas que moram nas ruas, é formado por homem adulto por volta de 40 anos, são negros, tem ensino fundamental incompleto e vive sozinho.
A sobrevivência se torna uma luta a cada dia, alguns preferem ficar ao relento ao se abrigar em albergues, “pois há muito burocracia para conseguir um lugar e quando se consegue, o local é de péssima condição de higiene”, afirma Sofia.
A forma de busca por sustento é algo que os moradores de rua fazem questão de ressaltar. A agrande maioria, afirma que não pede esmolas, mas sim trabalho. Muitas dessas pessoas fazem o que conseguem para trabalhar, como a reciclagem de papel, latas de alumínio e cobre, o que lhe rendem em média cerca de 15 a 20 reais por dia.
Para a psicóloga Aparecida Magali de Souza Alvarez, mudar essa situação em que os moradores de rua estão não é algo fácil de fazer. “Estamos tratando aqui de um problema extremamente complexo. Apesar de estarem morando nas calçadas cada um que ali está é um ser humano único, com suas singularidades, suas motivações, dores e sofrimentos. Não dá para generalizar. Falar em recuperá- los e sobre introduzi-los na sociedade novamente é falar sobre algo amplo, que em sua complexidade exige que pensemos a respeito de várias circunstâncias, como, por exemplo, o porquê de cada uma dessas pessoas ter chegado a essa situação”, explica.
Segundo psicóloga não é possível dizer que os programas existentes, tanto do governo ou não, estão seguindo pela direção correta e não haverá uma solução em curto prazo. “Os trabalhos realizados pelas ONGs existentes não pode ser analisados de maneira genérica, é necessário que se conheça cada uma, com suas atuações específicas, para podermos dizer caso a caso se estão ou não na direção correta”, disse.
Embasada no estudo que realiza há dez anos com moradores de rua, a psicóloga fala como seria um trabalho com mais resultados, focados nas necessidades dessas pessoas.
“Seria, num primeiro momento, aquela ONG e quando falo ONG falo de pessoas que lá trabalham, que buscasse cada ser humano que está ali, com a cabeça na calçada, que procurasse o ser humano que se esconde atrás daquele sofrimento, daquelas drogas que apagam os sentidos e que o lança nas viagens imaginárias de loucura e alienação. E buscar e procurar não quer dizer fazê-lo através de encontros apressados com eles, em que eles sintam o distanciamento afetivo-emocional do outro que está ali lhes estendendo a mão. É realmente estar com eles, olhos nos olhos, ponto de apoio que os fortalece para o re-encontro do sentido de suas existências” esclarece.
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